segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"Assim, da mesma forma como outros escolhem o apoio das pessoas ou a nudez do campo, ela escolhera o desafio da entrega."

(Caio Fernando Abreu)

domingo, 22 de novembro de 2009

Para mim,

amar demais é vegetar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sobre o tempo

- De quem era aquele carro?
- Oi, coração, boa noite.
- Responde o que eu acabei de te perguntar.
- Ah, vai, chega de implicância besta e vem logo aqui, neném.
- Não, pode parar. Tira essa mão de mim! Vais fugir outra vez de responder? Quem era? Do trabalho de novo? Hora extra? Muita coisa pra fazer, não era?
- É incrível como tu consegues estragar e infernizar a vida de qualquer cristão.
- Ah! Então quer dizer que EU que to infernizando tua vida? E a minha, fica onde? Pra servir de consolo pra tua?
- Pronto, lá vai começar. Mas antes, me traz pelo menos 3 pedrinhas de gelo, ainda tem whisky aqui, sobrou um bucadinho, olha aí oh.
- Pra onde tu foste?
- Escritório. Em vez de cafezinho, tão servindo whisky agora.
- Mas que porra, larga de ser infantil. Será que tu nunca vais deixar de ser egoísta, só pensando em ti, na tua satisfação, esquecendo que tem alguém aqui toda noite te esperando? Por uma coisa que TU escolheste?
- Tu queres brincar de casinha e eu que sou infantil? Pois tá.
- Olha só o teu cheiro. Fedendo a cigarro, a cachaça, sei lá... Voltaste a fumar, foi? Não eras tu que tinhas parado, que não ia mais beber se não fosse comigo?
- Vai lá, ao que mais? Esqueceste de mais um item. Tu já foste melhor nisso.
- Ao que?
- Pois é, parei. Eu disse que tinha parado, e parei. Mas hoje deu vontade e eu voltei. Quando eu quiser parar, paro outra vez. Combinado?
- Tu te lembras quando tu me falaste que queria vender teu apartamento pra morar aqui comigo? No dia que tu trouxeste tuas roupas?
- Cacete, já ta chorando. Eu disse... traz o gelo!
- ... e que tu ias me amar pra sempre?
- Quem disse que eu não te amo?
- Tu e tuas merdas.
- Pois bem, eu te amo, e amo minhas merdas também.
- Eu não aguento mais chegar em casa cedo, depois de horas no supermercado, fazer um jantar pra ti e tu não pareceres. Tu mudaste muito, parou de tomar café-da-manhã comigo, nem almoçar almoça mais, esquece das nossas datas, de me avisar que vai chegar tarde. Olha lá a mesa, tô desde às 8 te esperando, e são 3-d-a-m-a-n-h-ã.
- Pronto, amor, acabaste de descobrir com quem tu divides a cama.
- Quem tava naquele carro?
- Há 3 meses.
- MERDA!

- Mas é bom?
- Ótimo.
- Quantas vezes?
- Hum...
- RESPONDE!
- Uma no carro e outra hoje.
- Tô com nojo de ti.
- Caceta, esse sapato aperta muito.
- Nossa, e eu pensando que...
- Antes de começar: o gelo, por favor.

Ele levantou do sofá, tropeçou em um cartão esquecido no chão, enxugou o rosto com a manga da blusa, olhou por cima do ombro, e bateu a porta do quarto.
Ela sentou no sofá, desacalcanhou os sapatos, passou as mãos pelos quadris fartos, descendo pelas coxas, desenrolando cuidadosamente a meia calça escura, deitou, retirou os cabelos longos presos entre o ombro e o braço do sofá, acendeu um cigarro, soltou um espasmo pelas narinas, quase uma risada forçada e bebeu o último gole – sem gelo.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Diálogo

— E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura.
Tenho medo de cair para dentro de você.
Há nos seus olhos verdes certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura.
Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor.
Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor.
E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos)

— Ah. Porque eu sou tímida.


De tempos assim, eu digo, só da escRITA.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Sobre o projeto precipício

É, de fato, a saudade dos planos utópicos. Saudade de se doar inteira, arrepio por arrepio, gota por gota; ah, mas repare só: nada da recompensa chegar de fita dourada.
A gente se afunda num poço e tampouco enxerga a luz no alto, tampouco se joga com as cordas atadas na mão – eu me joguei com um kit de segurança completo. Das cartas, das tantas cartas escritas e ridiculamente guardadas, rasgadas e trancafiadas em um ego ferido, repousei parte de meu ócio. Das conversas no telefone, refúgio de risadas forçadas e lembranças amargas. Qualquer sentimento, eu não sentia, mas queria fazer sentido a terceiros (melhor: primeiros), ser plana, rasa – eu engolia balas com um copo d’água na mão, como a um remédio, justamente para me privar do gosto, do prazer, do ardor, e, sem desconfiar, vendada pela imaturidade, apenas tocando o vento gélido e guiada pelo desequilibro, tracei um projeto precipício.
Tá sobrando falta de ser um referencial. “Olha lá, tás vendo aquela menina dos olhos brilhantes e do estômago trêmulo? Dobre à esquerda.” Saudade de servir como motivação alheia. De ganhar um bilhetinho, sair correndo pelos corredores da escola e se trancar no banheiro nunca reformado, fechando os olhos, respirando rápido, sufocando-o entre as mãos apoiadas e dormidas sobre o peito. Tanto agora: sufocando-o com os olhos borrados, e aprisionando-o entre os seios. A saia de prega azul ta cheirando a naftalina, e esse tubinho preto não me deixa cruzar as pernas: eu quero não dormir e amanhecer com o travesseiro encharcado de insegurança e medo, de ter(/criativar) sonhos minimalistas e rechear a realidade.
Eu quero voltar a acreditar que com duas mãos atadas se constrói um mundo.
Saudade dos ciúmes, da cara a tapa, de poses, das unhas clarinhas, dos pedidos, dos queixos tremidos, da auto-suficiência estampada na cara. Saudade de criar dialetos estranhos e inquestionáveis, quando “eu te amo” torna-se medíocre demais. Tem dúvida sobrando por aqui - se meu muito tá sendo pouco, se meu pouco tá sendo muito, se o muito é realmente o que faz feliz ou se é com o pouco que eu quero seguir: foi a partir daí, querido, que eu esgotei a reserva de oxigênio do kit.
Eu quero crer, piamente, que se pode enfrentar fogueiras e guilhotinas por alguém que não seja quem tu lês agora.
Nesse instante, a voz rouca sussurra pelo resgate. Enquanto, o sentimento racional – e fodal- me empurra cada vez mais pro fundo.


- Venha cá, meu bem, senta no meu colo que agora eu vou te contar como entrei no inexpressível.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre a saudade



“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram”
(Fernando Pessoa)


Uma onda, outra, rápido, forte, náuseas, impulso, mais outra, e se tu estivesses aqui? E se cada linha minha fosse por ti? E se cada curva minha fosse pra ti? E se tu fosses o único que saberia valorizar isso, pra depois, me fazer dizer “vem cá, vem cá, da cá tua mão e esquece. Esquece de ti, de mim, e lembra só dos dois”? Os dois, a propósito - juntos. E se acabasse a distância e teu pé começasse a pisar o meu? O teu ombro escondido pela camisa cinza me chamando. E se ele falasse? Provavelmente, diria “teu”. E se cada linha tua fosse por mim? E se tu me mandasses pra puta que pariu e, depois de um porre, me ligar, me ligar, tua voz, tua sobriedade. E se eu ouvisse ela? E se tu me acordasses às 12 rindo da minha voz rouca e da minha lerdeza? E se tu descobrires que não é tudo isso? E se EU descobrir? E a estupidez de estudar os outros, como fica, se assim tu fazes o mesmo? O mesmo, a esmo, a música, a palavra de dois gumes, teu silêncio, agora, um nervoso: e se fosse assim? E se a praça fosse essa? E o hoje? O cheiro de folha, a pedra no meio do caminho, o vento gelado, frescor, o sol grande, quase pra sumir, a noite adentrando, e se fosse agora? E se essa zuada infernal de carnaval fosse tu me contando as novidades da faculdade desorganizada? E se tu me imprensasses e me deixasse sem saber o que fazer? Aí, querido, eu voltaria a viver, voltaria, definitivamente, tudo o que já aconteceu. O que agora, eu faço (re)acontecer. Repara só nos paralelepípedos, de ontem pra cá, deixaram de ser os mesmos. Repara só na minha risada, de ontem pra cá, estão mais controladas. E se esse filme fosse contigo aqui, com teus vícios - aqui. Tu, tua bagagem, teu ego, minha impaciência, minha ignorância, e se eu quisesse andar e tu quisesses ficar parado no banco? E se eu te desse roupas novas e tu mandasses eu trocar o vestido curto demais? E se eu dissesse não? E se tu só me olhasses e saísse calado? E se eu fizesse o mesmo? E tampouco depois dar satisfação? E nem tu, querido? Vais embora? Com Deus e a pomba do divino, boa noite. E se eu me arrependesse? E se eu botasse um que caísse abaixo dos joelhos e tu voltasses pra irmos à sessão das dez?
Outras ondas: agora tem água salgada dentro da boca, fazendo doer a garganta, os olhos ardendo, mais nada pra pensar:

- Ô, perdão, moço, desculpa, não lhe reparei.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Sobre o clichê e o ambíguo


E é assim: pela questão de não ter sentido.